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'Deveria ter ignorado? Não sei ainda...'

15/09/2020 às 10:25

Saiba, Neymar, que não. Não deveria ter ignorado. As reações frente a um ato de racismo podem ser inúmeras. As suas de ontem (13.09.2020) poderiam ter sido mais ponderadas, menos agressivas, mais calculadas, mais assertivas. Poderiam ter sido verbais e não físicas. Poderiam não conter menções a violência. 

Poderia haver inúmeros ajustes até se chamar de perfeita ou totalmente adequada uma reação a um ato de racismo, mas aí não seria uma reação humana, uma reação da vítima. Você poderia, de fato, ter reagido de forma a evitar sua própria expulsão. 

Mas você não poderia (ou não deveria) ter ignorado. 

Os árbitros não deveriam ter ignorado. 

O Olympique de Marselha não deveria ter ignorado. 

E nenhuma vítima de racismo deve acordar no dia seguinte ponderando sobre o que fez de errado em sua reação. Esse não é o debate. O que precisa ser mudado não está na reação de quem sofre e sim na postura de quem pratica. 

Xingamentos, insultos e palavrões fazem parte do esporte? Longa e inacabável vai ser a discussão. O que podemos firmar como consenso é que o racismo não faz. 

Racismo não é insulto de jogo para desestabilizar adversário, é um crime que tem como vítima a pessoa que sofre o ataque, mas também toda sua família e inúmeras outras pessoas que assistem ao jogo, pessoas que torcem pelo time da vítima, pessoas que torcem pelo time daquele que praticou o ato, pessoas que não torcem para time nenhum e pessoas que não estão nem aí pro futebol. Racismo é um crime de ódio que atinge uma população inteira, milhões de pessoas ao mesmo tempo, e isso com certeza não tem lugar em qualquer esporte.

Os debates que colocaram em xeque comportamentos e atitudes extremamente normalizados por tantos anos na sociedade estão recebendo, nos últimos anos, uma carga de atenção e adesão jamais experimentados e os resultados são disruptivos. Essas rupturas com tudo que é inaceitável são construídas por pessoas que tem projeção e capacidade de inspirar. Elas não devem parar. Elas não devem e não podem ignorar. 

Porque você não ignorou, um menino negro que sofre racismo na escola também vai procurar meios para reclamar, também vai bravejar “racismo não!”, também se indignará se porventura sua denúncia não surtir efeito. 

Porque você não ignorou.

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